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Enquanto os tontos dormem, os leões caçam

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Era um dia de sábado.

As prateleiras da biblioteca estavam sumidas numa agradável penumbra, e as poucas réstias de luz de sol que penetravam incidiam numa grande mesa retangular. Debruçados sobre esta, alguns poucos jovens examinavam uns rolos. Sua atitude era de preocupação e inconformidade. Eles estavam de costas para mim; eu, porém, achava estar vendo-os bem. Vestidos com túnicas cumpridas, tinham também longas franjas, rolinhos e outras coisas que não dava para ver.

Dissimulado pela penumbra, consegui apanhar o tema da conversa: tratavam de um malfeitor – um certo Jesus –, dos chefes do povo, e de uma condenação prestes a acontecer, graças à qual tudo voltaria à normalidade. Então compreendi de que eram noviços da seita dos Fariseus.

A porta de um dos corredores bateu… e me exorcizou repentinamente de meu devaneio, que há um segundo apenas parecia ser uma cena real.

Levantando, assustado, as vistas do grosso manual bíblico que estudava, observei meu entorno.

Hoje, por sinal, era sábado…

As prateleiras da Biblioteca estavam na penumbra, porque pouca luz entrava pela janela, iluminando apenas a grande mesa da sala. Inclinados ao seu redor, alguns poucos jovens examinavam uns rolos, numa postura que refletia inconformidade e preocupação. Eu os via muito bem, de costas para mim. Também vestiam túnicas cumpridas, mas à diferença dos jovens fariseus de meu devaneio, estes não tinham franjas nem rolinhos, mas botas, e uma grande cruz estampada no escapulário. Eram estudantes dos Arautos.

Ao reconhecer meus alunos, fui sobressaltado por um certo sentimento de temor; mas logo sosseguei, lembrando-me que só nos sonhos e nos devaneios penetramos facilmente os pensamentos e as intenções dos outros. Mesmo que soubessem que livro eu lia, não adivinhariam por quê o consultava.

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Tranqüilizado, me aproximei discretamente da roda. O tema deles, contudo, me pegou desprevenido, e tive que dissimular meu espanto: os rolos eram os posts do site “Residuum revertetur”, e os jovens ferviam de indignação.

– Viu só isso? “Investigar os Arautos”!… Só faltava essa!

– Espere: com base no quê??

– Ah, não, mas é que, agora, qualquer um na Igreja pode ser livremente catalogado como suspeito. Voltamos para os obscuros tempos da ditadura!

– Também, de ser verdade o que circula por aí, entre bispos corruptos e padres pedófilos… Claro que tem que perseguir quem não faz nada de errado…

– Francamente… como é a história de tirar a trave do próprio olho ante de apontar para a palha do outro?

Outro rapaz caiu na gargalhada.

– Ahahahah! Você disse bem: isto vale “pros outros”…! Ahahah!

– São mesmo uns fariseus…

A frase ficou pela metade. O jovem tinha ficado branco como o rolo que tinha nas mãos. Finalmente, me vira. A roda congelou. Timidamente, alguns arriscaram, baixinho, envergonhados:

– Bom dia, Professor…

Não consegui dissimular um leve sorriso. Eles ficaram um pouco desconcertados, e um tentou explicar a situação.

– Desculpe, Professor… estávamos estudando para a prova… sobre os padres da Igreja… então fomos procurar material na internet, e acabamos caindo sobre isto…

Fiz de conta que não conhecia a matéria: ninguém sabe que eu contribuo para o site.

– Curioso – disse eu –, e o que vocês acham disto?

Eu não os tinha repreendido, e isto lhes deu coragem.

– Achamos… Bem, eu acho… Quer dizer, estava pensando… Parece uma injustiça.

– Por quê?, perguntei tranquilamente. Foi outro quem respondeu.

– Até parece que somos um perigo para a Igreja! Que crime cometemos? Que irregularidade? E enquanto se multiplicam os escândalos, gravíssimos, por todas partes, em vez de investigar a esses, nos perseguem a nós?!

– Isso é falsidade! – disse um terceiro. Pretendem ser uma coisa, e fazem outra. Quer saber por quê? Porque sob pretexto de “preservar o bem da Igreja”, somente a estão prejudicando! Quem ganha com isso? Mas é o chifrudo, é claro…!

Eu ficava quieto, só ouvindo; mas, na verdade, estava tirando uma boa lição da atual situação. Entretanto, percebi que um quarto rapaz, mais reflexivo, tinha permanecido em silêncio. Voltei-me para ele, e perguntei a queima roupa:

– E você? O quê pensa disso?

Ele, sério, quieto, reservado, me olhou direto nos olhos por um instante, e soltou quase inexpressivamente:

– Lobos com pele de ovelha. Fariseus.

Surpreendeu-me o contraste entre o tom de voz e a afirmação. Os mais quietos são muitas vezes os mais profundos, mais perigosos. Eu comecei a gostar muito desta história. Resolvi pressionar um pouco mais.

– Você não acha exagerada essa aproximação entre o partido dos “visitadores” e os fariseus? Com mais de dois mil anos de distância… um pouco forçado, não?

Houve um pouco de insegurança. Finalmente, opinaram concordar com a aproximação.

– Não, acho que é afirmação é justa.

– “Acho”?!, – respondi com ar de reprovação – você “acha”? Vocês são acadêmicos; não podem se conformar com “achismos”… Francamente! Ou sabem defender seu ponto de vista, seja este qual for, ou abstenham pronunciar-se…

Todos ficaram quietos. Então, lancei:

– Só há uma maneira de dissipar a dúvida…

A estas alturas, eles me comiam com os olhos.

– Estudar. Conhecer quem eram os fariseus; conhecer quem são estes que vocês criticam. Aproximar uns dos outros, e ver se bate.

Seus olhos, agora, estavam iluminados. Percebi que eles estavam fazendo planos.

– E se vocês quiserem… posso tentar ajudá-los. E este livro aqui pode ser um bom ponto de partida para começar…

E coloquei sobre a mesa o grosso manual bíblico, onde estivera estudando justamente isso, alguns minutos antes.

Eles não esperavam por essa. Aceitaram o desafio, unânimes e entusiastas, e cinco minutos mais tarde, todos eles – cada um com seu bloco de notas na mão – se tinham espalhado pela biblioteca para juntar fichas…

*         *          *

Assim nasceu, há algumas semanas, mais uma célula de estudos dos “leões”… em dia de sábado. Seu propósito: apresentar uma leitura aggiornata dos Evangelhos, isto é, estudar se as apóstrofes dirigidas por Nosso Senhor Jesus Cristo – em todo rigor de justiça, sem piedade nem mitigação – têm ainda a quem serem aplicadas nos dias de hoje. Os resultados surpreenderão a mais de um, isto eu garanto.

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Enquanto os tontos dormem, os leões caçam. E a matilha cresce…

De ainda considerar-se Jesus como Deus (pois hoje, até isto devemos estar preparados a ouvir ser negado), as sentenças ditadas pelo Mestre contra os fariseus não podem ser qualificadas de exageradas nem injustas. E de encontrar-se gente, hoje em dia, que cabe na definição de “fariseu”, o menor resto de lógica que ainda reste nas mentes destroçadas pelo relativismo reinante obrigará a constatar serem concernidos pela opinião de Cristo, pois dois termos iguais a um terceiro são iguais entre si…

Mas a lição que tirei desta minha passagem pela biblioteca é de outra índole. Os Arautos que ocupam os cargos de direção da entidade estimam conveniente alinhar-se com uma versão “oficialista” dos fatos, e até agora nada trataram com os membros sobre o tema da já tão infaustamente famosa “Visita Apostólica”. É como se não existisse… Se pensam com isto conseguir acalmar os ânimos, e fazer sossegar a tropa, muito se enganam.

Por debaixo d’água, o mundo marinho se organiza e se estrutura. Nas cavernas do deserto, os rugidos de noite atestam que nem todos aceitam ficar dormidos. Enquanto os tontos dormem, os leões caçam. E a matilha cresce: agora, já tem vários leõezinhos espalhados por aí, aguçando também os dentes… até mesmo em dia de sábado.

 

João Crisóstomo

São João Crisóstomo, renomado exegeta, lutou acerbamente contra os heréticos, os fariseus e a corrupção dos costumes - especialmente no clero - , porquanto não deve surpreender ter sido ele objeto de violento ódio. A "Boca de ouro" do Residuum, por sua vez, é constituída por uma comissão de jovens leões que estudam se as Escrituras ainda se aplicam aos tempos atuais, denunciando - como seu patrono - aquele "mau lugar onde aflui tudo o que há de mais depravado" (Sermo II, 3).

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