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Um sereno diálogo sobre o diálogo

Não tive a oportunidade de conhecer pessoalmente o sr. André Garcia. Mas basta-me o fato de quase diariamente me deleitar escutando as velhas gravações do majestoso órgão da igreja de Fátima.

A partir das palavras de nosso interlocutor [1], antigo membro da TFP, podemos selecionar duas objeções ao artigo “Ecumenismo selvagem ou catolicismo pagão?”[2]

  1. Em nenhum lugar da “opera magna” de Plinio Corrêa de Oliveira pode ser encontrado o reconhecimento da existência de sementes do Verbo em outras religiões para encetar o “diálogo sadio” com elas.
  2. Pelo contrário, um dos livros que escreveu, “Baldeação Ideológica Inadvertida e Diálogo”, é o contrário disso, pois apresenta cabal e corajosa denúncia do nefasto “diálogo” irênico, hegeliano e relativista que Paulo VI consagrou na Encíclica “Ecclesiam Suam”.

Respondo por partes.

Em primeiro lugar, a respeito da expressão “sementes do verbo”, não há, de fato, na opera omnia de Plinio Corrêa de Oliveira, ao menos que saiba, tal expressão para justificar a posição supramencionada. Pelo contrário, ele até condena a má utilização dela pelos progressistas.

Antes de tudo, convém distinguir o que ela significa.

No entender de São Justino (mas também outros Padres da Igreja de modo análogo), pode haver verdades naquilo que Dr. Plinio denominou com muita frequência de “religião natural”. Esta pode constituir até mesmo uma preparação — como se expressava Eusébio de Cesareia — para o recebimento autêntico de Jesus Cristo. Daí que referimos acerca da sabedoria de São Paulo no Areópago em revelar quem era aquele “deus desconhecido” pelos gregos pagãos. Naquela ocasião o autêntico ecumenismo foi levar Dionísio à conversão.

Se Dr. Plinio jamais utilizou a expressão “sementes do verbo”, isso não significa que o real conceito que ela denota fosse ignorado ou rechaçado por ele. De modo análogo, ele jamais se utilizou da palavra “eubulia”[3] — isto é, retidão da deliberação —, contudo isso não implica que tal conceito tenha sido excluído de suas explicitações. Pelo contrário, bem sabemos que este era um tema muito recorrente em suas reuniões. Ademais, “se a rosa tivesse outro nome — diz Shakespeare — ainda assim teria o mesmo perfume”…

Nesse sentido, não sei se nosso interlocutor esteve presente na ocasião, mas no Santo do Dia de 18 de janeiro de 1971 nosso fundador se expressou a respeito do tema. Disse, a guisa de exemplo: “Há, antes de tudo, o seguinte: restos de religião natural presentes na religião persa e que abrem um pouco os horizontes deles para o sobrenatural”.[4]

E também nas reuniões sobre o livro da Nobreza, afirmou: “Deus, quando faz ver o universo ao homem e, através do universo, faz ver que Ele existe e como Ele é, opera dentro da temática chamada religião natural”.[5]

Ora, para não se objetar que tais trechos são meramente teóricos, basta oferecer um exemplo bem próximo de nós. Refiro-me ao de São José de Anchieta. O biógrafo Charles Sainte-Foy narra o seguinte fato por ocasião da evangelização de um aborígene pagão de avançada idade, embrenhado na selva brasileira:

“Quando lhe perguntou [Padre Anchieta] o que desejava, o velho respondeu que procurava o caminho reto. Anchieta se pôs a instruí-lo nos mistérios de nossa Fé, e concluiu que aquele homem jamais havia transgredido gravemente a Lei Natural, e que conhecia, unicamente iluminado pela razão, muitas verdades a respeito da existência de Deus, da imortalidade da alma, da beleza da virtude. Ouvindo o santo missionário explicar-lhe os mistérios da Religião cristã, o velho por vezes exclamava: ‘É isso, é isso! É assim que eu imaginava as coisas, mas não via com essa clareza’. O Padre Anchieta, tendo-o instruído mais a fundo, recolheu água da chuva depositada numas folhas de cardos, a única que tinha ao alcance no local, e batizou-o com o nome de Adão”.[6] Mais um exemplo de autêntico diálogo.

Não se ignora que esta última palavra é uma daquelas ditas talismânicas, maliciosamente empregadas para fins subversivos. Tampouco se desconhece a condenação de sua instrumentalização, conforme aponta no livro de Dr. Plinio Baldeação Ideológica Inadvertida e Diálogo, citado pelo próprio missivista. Entre as palavras talismãs o autor enumera também o “ecumenismo”, aqui objeto de debate.

Podemos discernir o sentido de ambos verbetes se analisamos esta obra no seu conjunto. Em prol da síntese, basta citar os seguintes trechos:

Convém distinguir desde logo duas formas de ecumenismo. Uma procura — com o fim de encaminhar as almas ao único redil do único Pastor — reduzir quanto possível as discussões puras e simples e as polémicas, em favor da discussão-diálogo e das outras formas de interlocução. Tal ecumenismo tem ampla base em numerosos documentos pontifícios, especialmente de João XXIII e Paulo VI. Mas outra modalidade de ecumenismo vai além e procura extirpar das relações da Religião Católica com as outras religiões todo e qualquer carácter militante. Esse ecumenismo extremado tem um fundo evidente de relativismo ou sincretismo religioso, cuja condenação se encontra em dois documentos de São Pio X, a Encíclica Pascendi contra o modernismo e a Carta Apostólica Notre Charge Apostolique contra o Sillon. […] O ecumenismo extremado produz não só entre os católicos como também entre os irmãos separados, sejam eles cismáticos, hereges ou outros quaisquer, uma confusão trágica, por certo uma das mais trágicas de nosso século tão cheio de confusões”.[7]

A limpidez da argumentação pliniana dispensa comentários, ao mesmo tempo que explica nossa posição: “O reto ecumenismo parte da busca honesta da verdade, jamais no rebaixamento das convicções evangélicas. Parte de um diálogo racional, jamais numa imposição violenta”.

Nesse âmbito, um dos problemas centrais apontados por Dr. Plinio era a falácia produzida pela intelligentsia comunista, a saber, as palavras talismãs seriam de si intrinsecamente boas. Em outras palavras, todo diálogo, todo ecumenismo, toda solidariedade seriam per se bons… é óbvio que o autêntico pliniano jamais admitiria tal atitude!

Sem embargo, em que pese a pós-moderna tergiversação da palavra “diálogo”, isso não significa que devemos simplesmente exclui-la de nosso vocabulário. Antes, por que não utilizá-la conforme o seu real sentido a fim de pôr em marcha a Contra-Revolução?

Foi assim que agiu meu mestre e modelo, quando convidou seus detratores a um “sereno e cordial diálogo” ou a um “diálogo cordial e construtivo” durante o estrondo de 1975,[8] e de modo semelhante em resposta às calúnias difundidas pelo programa do Fantástico em 1978.[9] Por outro lado, Dr. Plinio não era ingênuo e soube criticar o progressismo, precisamente porque fugiu a priori “ao debate ou ao diálogo doutrinário”…[10]

Em conclusão:

Não adotamos o diálogo incondicional, pois bem conhecemos a tática progressista.

Tampouco desprezamos a priori o diálogo, pois não aderimos a práticas totalitárias.

E, sobretudo, somos amigos do debate ideológico franco e aberto com irmãos de ideal. Portanto, caro missivista, agradecemos sua colaboração que deu-nos oportunidade de esclarecer este ponto para nossos leitores. Participe sempre.

Bruno Lanteri


[1]

Salve Maria!

Agradeço a diplomática resposta do moderador do blog que se apresenta como Leonardo. Embora dê a entender que me conhece pessoalmente ao dizer “Quanto tempo!!”, não me lembro entretanto de nenhuma pessoa com esse nome que faça parte dos quadros dos Arautos ou Dissidentes da TFP. Feita essa ponderação, retribuo à cortesia do tratamento e também lhe respondo “Quanto tempo!!”.

Sem dúvida essa coluna do blog RR em geral publica notícias sem manifestar opinião. Não obstante, ao publicar “Ecumenismo selvagem ou catolicismo pagão?”, fê-lo com uma nota introdutória na qual manifestou opinião. Por isso, é compreensível que ao ler a notícia da entrada do andor do deus pagão Ganesh no santuário marial na Índia, fato que agride com violência o “sensus fidei”, eu tenha sentido a falta dos rugidos leoninos – que me permitiram conjeturar uma auspiciosa ressurreição do “thau” contra-revolucionário num veio dos Arautos, nos que afinal voltam à luta, mesmo que seja com a viseira abaixada por conveniência de momento. 

Conforme indicou o moderador, fui ao manifesto-denúncia, que é verdadeiramente impactante, mas no tocante ao ponto preciso que indiquei – o ecumenismo e declaração sobre a liberdade religiosa –, apenas consigna que o novo movimento fundado pelo Mons. João Clá tem “raízes profundas nas interpretações autênticas da doutrina e nas tendências boas do Concílio Vaticano II”. Ou seja, pretende que o Concílio possui boa doutrina se dele se fizer correta hermenêutica, e que seus frutos são bons na medida em que haja fidelidade ao verdadeiro espírito conciliar. E isso é corroborado pelo comentário introdutório à notícia sobre o ecumenismo selvagem que referi acima, o qual afirma: “O prudente teólogo católico sabe discernir as ‘sementes do verbo’ em outras religiões e a partir delas empreender um diálogo sadio”.

Também o moderador ressaltou a importância da “admiração pelo verdadeiro espírito do Sr. Dr. Plinio”. Ora, em nenhum lugar da “opera magna” de Plinio Corrêa de Oliveira pode ser encontrado o reconhecimento da existência de sementes do Verbo em outras religiões para encetar o “diálogo sadio” com elas. Pelo contrário, um dos livros que escreveu, “Baldeação Ideológica Inadvertida e Diálogo”, é o contrário disso, pois apresenta cabal e corajosa denúncia do nefasto “diálogo” irênico, hegeliano e relativista que Paulo VI consagrou na Encíclica “Ecclesiam Suam”. Por outro lado, também não se vê na obra pliniana a contínua louvação do Concílio que é característica dos progressistas. Pelo contrario, na Parte Terceira de sua obra fundamental, “Revolução e Contra-Revolução”, as palavras referentes ao Concílio não são elogiosas.

Confesso que fiquei um tanto decepcionado pela esquiva resposta do moderador – pois meu comentário não teve intenção polêmica, e sim, o intuito de dar ensejo para reouvir os rugidos dos leões que acordaram, desta vez em matéria tão importante e verdadeiramente fundamental, como os dois pontos do Concílio que são absolutamente inaceitáveis. Coloco-me, sem embargo, em atitude de espera positiva. Volto também minhas esperanças para o Reino de Maria, exclamando como São Luís Grignion de Montfort: “Expectans expectati” (Sl. 39, 2-4).

Oremus ad invicem. 

[2] Ecumenismo selvagem ou catolicismo pagão?  

[3] S. Tomás de Aquino. Suma Teológica, II-II, 51, 1, s.c.

[4] Santo do Dia, 18 de janeiro de 1971

[5] Corrêa de Oliveira, Plinio. Verdadeira cultura e tipo humano. In: Dr. Plinio, n. 58, 2003, p. 17.

[6] Sainte-Foy, Charles. São José de Anchieta. O apóstolo do Brasil. São Paulo: Petrus, 2014, p. 85-86.

[7] Corrêa de Oliveira, Plinio. Baldeação ideológica inadvertida e Diálogo. Catolicismo n. 178-179, out-nov. de 1965, p. 8.

[8] Corrêa de Oliveira, Plinio. A TFP em legítima defesa. Catolicismo, n. 294, jun. de 1975.

[9] Corrêa de Oliveira, Plinio. Sobre um programa de TV: a TFP ao público brasileiro. Catolicismo, n. 334, out. de 1978.

[10] Corrêa de Oliveira, Plinio. A Igreja ante a Escalada da Ameaça Comunista. Apelo aos Bispos Silenciosos. São Paulo: Vera Cruz, 1976, p. 48.

Bruno Lanteri

Seguidor de Plinio Corrêa de Oliveira, colocando a esperteza a serviço da Contra-Revolução: "Desmascarar um erro diante de um grande público é insigne obra de caridade" (Plinio Corrêa de Oliveira, 1956).

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