Ir para conteúdo

Sou católico, devo ser a favor do Papa Francisco?

Carta de um católico perplexo à redação de Residuum Revertetur. Por enquanto, preferimos não nos pronunciar a respeito.

Caros coordenadores do blog Residuum Revertetur,

Permitam-me, antes de tudo, transmitir-lhes meus cumprimentos pela iniciativa deste blog. Não tenho dúvidas de que ele tem servido para esclarecer suspeitas de muitos que atualmente se encontram perplexos e assustados com a situação da Igreja Católica.

E é essa perplexidade que me faz escrever esta carta. Desde a minha infância sou frequentador assíduo das missas dominicais, pois pertenço a uma família verdadeiramente católica. Aprendi a rezar o terço com os meus pais, frequentei a catequese para a primeira comunhão, o curso de crisma, e casei-me também com as bênçãos da Igreja. Fiz questão de que meus filhos tivessem a mesma formação que eu, apesar das primeiras dificuldades que comecei a enfrentar no que tange as autoridades da Igreja. E eis a questão.

Em minha infância, eu aprendi uma série de verdades acerca da fé, que me têm servido de guia para decidir as minhas crenças e tomar decisões. No decorrer da vida, procurei oportunamente, através de leituras, orientações espirituais e cursos, a aprofundar-me. E tenho certeza de que Deus é que me tem conduzido no sentido de conhecê-lo, amá-lo e servi-lo a cada dia mais. Entretanto, o comportamento e os ensinamentos do Papa Francisco me têm colocado numa verdadeira encruzilhada. Com todo o respeito ao que ele representa, posso afirmar que ele contradiz boa parte do que ensinou a Igreja no decorrer de sua história. Sei o quanto tudo aquilo que nos é transmitido pelo Magistério se fundamenta nas palavras e nos atos de Jesus Cristo e dos Apóstolos, mas boa parte do que diz essa figura à qual nos dirigimos enquanto Sumo Pontífice difere muito do que pregou o Messias. Se fosse simplesmente enumerar os exemplos, sem descrever, não caberia numa carta. E o pior é que, segundo meu senso católico, quando Bergoglio não contradiz veemente o Evangelho, ao menos se contrapõe às conhecidas palavras do Divino Mestre que afirmam “Seja o vosso falar: Sim, sim; não, não. Tudo o que disto passa, procede do Maligno” (Mt 5, 37).

Atitudes como essa tem dado margem para que católicos de má fé, ou seja, pessoas e instituições que se dizem seguidoras de Jesus Cristo, mas que querem adaptar a religião verdadeira aos seus gostos, vícios e ao mundo corrompido, realizem atividades aberrativas como a infundada campanha de assinaturas designada “Papa Francisco: Estamos ao lado do Papa, por uma Igreja em saída”. A mencionada campanha, que tem como subscritores Boff, Beto, um bispo anglicano, entre outras “personalidades” oficialmente apartadas da Igreja de Cristo, conta com somente 550 assinaturas em quase dois meses, de pessoas que se intitulam “Nós somos a Igreja”. Isso trata-se realmente da Igreja Católica? Ou estamos em face de uma seita nascente, com 550 membros que tem como líder a Francisco?

Poderíamos aqui mencionar outras iniciativas. Por exemplo, a escolha de Francisco como personalidade do ano devido à sua posição liberal por revistas de índole que contraria a doutrina católica e ainda a “Carta de apoio ao Papa Francisco” de Leonardo Boff. E tantas outras realizações mundanas que o apoiam, e mais tem servido para confundir a cabeça dos fiéis.

Considerando tudo isso, pergunto se o blog poderia se prestar a esclarecer uma dúvida de consciência que acredito não ser somente minha. Eu quero continuar sendo verdadeiramente católico praticante, seguidor, portanto, da verdade contida nos ensinamentos de Cristo e transmitida através da Igreja; assim sendo, eu estou errado se não me manifesto a favor do Papa Francisco, já que ele prega o contrário do que pregou Jesus?


Nota do Residuum Revertetur. Documentos citados na carta:

Papa Francisco: Estamos ao lado do Papa, por uma Igreja em saída

Papa Francisco: Estamos ao lado do Papa, por uma Igreja em saída

Estamos ao lado do Papa, por uma Igreja em saída

Somos cristãos e cristãs e igualmente gentes de todos os credos e caminhadas, de todos os gêneros, raças, cores, cheiros, brasileiros até o fundo d’alma, mesmo que alguns e algumas de nós não tenhamos nascido nesta terra‐caldeirão.
Reunimo‐nos neste texto para proclamar: estamos ao lado do Papa Francisco, por uma Igreja em saída, por um mundo que promova a cultura do encontro e não a rotina do descarte, por uma humanidade que acolha os mais pobres, frágeis, os sem teto, sem terra, sem comida, sem nada, em vez de tratá‐los como lixo.
Escrevemos para apoiar o Papa no contexto da crise político‐econômica do Brasil, dominado por um governo dos ricos, nascido de um golpe de Estado, com um projeto de destruição dos direitos trabalhistas, previdenciários e outros, com ataques seguidos aos pobres do campo e das cidades, especialmente aos mais vulneráveis, crianças, velhos e velhas, indígenas, mulheres, negros e negras, lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros.
Sentimo‐nos convocados e convocadas por Francisco para estar com os pequenos e pequenas do Mestre.
Levantamo‐nos, ao lado do Papa, contra a intenção manifesta de um fechamento eclesial que pretende transformar a primavera florescente de hoje no retorno à longa noite invernal. As posições assumidas por quatro cardeais restauracionistas e seus seguidores, que acusaram o Papa numa carta pública de “causar confusão doutrinal em relação a assuntos‐chave da doutrina católica” são a expressão de uma visão de Igreja que atenda a projetos de poder, dominação e controle sobre as pessoas.
Insurgem‐se os quatro cardeais e seus simpatizantes contra a Exortação Apostólica Pós‐Sinodal “Sobre o Amor na Família” (Amoris Laetitia), especialmente contra o direito de divorciados e divorciadas em segunda união partilharem da Comunhão Eucarística, baseados em falsos pressupostos de fundo moral e teológico que não encontram sustentação no melhor da tradição da Igreja. O Papa, no seguimento das pegadas do Manso e Humilde, vê diversidade e ocasião de acolhimento onde os olhos da censura enxergam apenas diferença e motivos de separação e exclusão.
Aos poucos, depois de anos de congelamento, a Igreja no Brasil retoma sua caminhada pastoral, profética e popular. Queremos muito mais. Não negamos o direito de livre expressão de pensamento de quem quer que seja. Afirmamos com desassombro, entretanto, que o explícito ou implícito apoio de segmentos da hierarquia a esses cardeais é um ataque à eclesiologia do Papa e do Vaticano II, que definiu a Igreja como Povo de Deus em movimento, muito além dos limites clericais. Não é mera coincidência o fato de os membros da Igreja que sustentam os cardeais rebelados sejam também aderidos ao golpe de Estado no Brasil e aos ataques aos direitos dos mais pobres.
Ao apoiar o Papa Francisco, deixamos explícitos alguns posicionamento que, entendemos, fazem dos cristãos e cristãs em todo o planeta uma Igreja em saída.
Defendemos:
a. a inclusão universal de todos os cristãos e cristãs à cidadania na comunidade eclesial mediante os sacramentos;
b. o sacerdócio ministerial celibatário opcional;
c. a criação de um organismo consultivo especial de mulheres ligadas ao Colégio de Cardeais para oportunizar mais espaço para a liderança feminina na Igreja;
d. o fechamento dos seminários maiores e retorno às casas de formação presbiteral; e. a nomeação de bispos “com cheiro das ovelhas”, na expressão do Papa, sem interferência da Nunciatura Apostólica;
f. o estímulo e apoio da CNBB às Comunidades Eclesiais de Base (as CEB’s);
g. a convergência da Igreja com os movimentos sociais, no espírito dos três Encontros Mundiais dos Movimentos Populares convocados pelo Papa.

Como “Igreja – Povo de Deus – em Movimento”, abaixo assinamos.

Igreja ‐ Povo de Deus ‐ em Movimento (IPDM); ‐ Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB);
Conselho Indigenista Missionário (CIMI);
Comissão Pastoral da Terra (CPT);
Pastoral Carcerária
Serviço Inter Franciscano de Justiça, Paz e Ecologia (SINFRAJUPE);
Rede Ecumênica da Juventude ‐ Nacional (REJU)
Centro de Cursos de Capacitação da Juventude ‐ CCJs (CCJ);
‐ Nós Somos a Igreja – São Paulo;
Pastoral Fé e Política São Paulo;

Pessoas
‐ Pe. Paulo Sérgio Bezerra, articulador IPDM.
‐ Pe. Ticão, articulador IPDM.
‐ Eduardo Brasileiro, articulador IPDM.
‐ Leonardo Boff, teólogo e escritor.
‐ Frei Betto, frade dominicano e escritor.
‐ Marcelo De Barros Souza, monge beneditino e teólogo.
‐ Mauro Lopes, jornalista e escritor.
‐ Moema Miranda, antropóloga IBASE.
‐ Flávio Irala, bispo anglicano, presidente do CAMI (Centro de Apoio e Pastoral do Migrante)
‐ Chico Whitaker,
‐ Stella Whitaker.
‐ Pe. Manoel Godoy, teólogo.
‐ Jorge Luis Souto Maior, professor da Faculdade de Direito da USP.
‐ Erminia Maricato, professora USP.
‐ Frei José Fernandes, OP, vice coordenador da Comissão Justpazop Brasil.
‐ Thiesco Crisóstomo, militante da Pastoral da Juventude e liderança das Cebs na Diocese de Marabá.
‐ Aline Ogliari, secretária nacional da Pastoral da Juventude.
‐ João Paulo Medeiros, Assessor Comissão Pastoral da Terra (CPT).
‐ Rose Costa, educadora e teóloga.
‐ Magali Do Nascimento Cunha, professora UMESP
‐ Claudio De Oliveira Ribeiro, teólogo e professor UMESP.
‐ Franklin Felix, educador popular e Espíritas Pelos Direitos Humanos.
‐ Andreia Alves, educadora popular Centro Social Nossa Senhora do Bom Parto.
‐ Igor Bastos, Juventude Franciscana (JUFRA) e Movimento Católico Global Pelo Clima.
‐ Mônica Lopes, Pastoral Fé e Política.
‐ Benedito Prezia, Pastoral Indigenista.
‐ Pe. Antônio Ferreira Naves, Comissão Pastoral da Terra São Paulo.
‐ Pe. Júlio Lancelotti, vigário do povo da rua Arquidiocese de São Paulo
‐ Pe. Nicolau João Bakker, svd, pastoralista.
‐ Cônego Antônio Aparecido Pereira, padre e jornalista.
‐ Antonio Carlos Pereira da Silva (Tonny) ‐ Irmandade dos Mártires da Caminhada Latino‐Americana.

https://secure.avaaz.org

Carta de apoio ao Papa Francisco

Carta de apoio ao Papa Francisco

Há uma campanha mundial e especialmente dentro da Cúria Romana de forte oposição ao Papa Francisco, especialmente ao seu modo carinhoso e informal que caracteriza seu estilo de ser Pastor da Igreja Universal e bispo de Roma. Grupos fortes dentro e fora dos quadros eclesiais que objetivam desestabilizar e até ridicularizar seu modo de ser Papa, despojado dos símbolos de poder, bem no estilo de São Francisco de Assis de quem tomou o nome. No II Congresso de Teologia Continental, realizado em Belo Horizonte entre os dias 26-30 de outubro sob o lema  A Igreja que caminha no Espírito a partir dos pobres resolveu escrever esta carta aberta em apoio ao Papa Francisco. Logo aderiram cerca de 300 pessoas do Brasil, de toda  América Latina, do Caribe e de representantes da Europa, do Canadá e dos Estados Unidos. Pedimos  divulgarem esta carta e testemunharem a sua adesão para o e-mail < valecarusi@gmail com.> da embaixada argentina junto à Santa Sé.  Lboff               

                                                 Carta de apoio ao Papa Francisco

            Querido Papa Francisco,

Somos muitos na América Latina, no Caribe e noutras partes do mundo que acompanhamos com preocupação a oposição e os ataques que lhe fazem minorias conservadoras, mas poderosas de dentro e de fora da Igreja. Perplexos, assistimos a algo inusitado nos últimos séculos: a tomada de posição de alguns cardeais contra o seu modo de conduzir o Sínodo e, mais que tudo, a Igreja Universal.

A carta estritamente pessoal, dirigida ao Sr. foi vasada para a imprensa, como já havia sucedido com sua encíclica Laudato Si’, em clara violação dos princípios de um jornalismo ético.

Tais grupos postulam uma volta ao modelo de Igreja do passado, concebida mais como uma fortaleza fechada do que como “um hospital de campanha sempre aberto para acolher quem lhe bata às portas”; Igreja que deverá “procurar e acompanhar a humanidade de hoje não com portas fechadas, o que trairia a si mesma e a sua missão e que, em vez de ser uma ponte, se tornaria uma barreira”. Estas foram suas corajosas palabras.

As atitudes pastorais do tipo de Igreja proposto em seus discursos e em seus gestos simbólicos se caracterizam pelo amor caloroso, pelo encontro vivo entre as pessoas e com o Cristo presente entre nós, pela misericórdia sem limites, pela “revolução da ternura” e pela conversão pastoral. Esta implica que o pastor tenha “cheiro de ovelha” porque convive com ela e a acompanha ao longo de todo o percurso.

Lamentamos que tais grupos, o mais que fazem é dizer não. Recordamos a esses nossos irmãos as coisas mais óbvias da mensagem de Jesus. Ele não veio dizer não. Ao contrário, ele veio dizer sim. São Paulo na segunda Epístola aos Coríntios nos recorda que “o Filho de Deus sempre foi sim, porque todas as promessas de Deus são sim em Jesus” (2 Cor 1,20).

No evangelho de São João, Jesus afirma explicitamente: ”Se alguém vem a mim eu não o mandarei embora” (Jo 6,37). Podia ser uma prostituta, um leproso, um teólogo medroso como Nicodemos: a todos acolhia com amor e misericórdia.

A característica fundamental do Deus de Jesus, “Abba”, é sua misericórdia ilimitada (Lc 6,36) e seu amor preferencial pelos pobres, doentes e pecadores (Luc 5,32; 6,21). Mais que fundar uma nova religião com fieis piedosos, Jesus nos veio ensinar a viver e a realizar a mensagem central do Reino de Deus, cujos bens são: o amor, a compaixão, o perdão, a solidariedade, a fome e sede de justiça e a alegria de todos sentirem-se filhos e filhas amados de Deus.

Os intentos de deslegitimar seu modo de ser bispo de Roma e Papa da Igreja universal, guiando-se mais pela caridade do que pelo direito canônico, mais pela colegialidade e pela cooperação do que pelo exercício solitário do poder serão vãos, porque nada resiste à bondade e à ternura das quais o Sr. nos dá um esplêndido exemplo. Da história aprendemos que, onde prevalece o poder, desaparece o amor e se extingue a misericórdia, valores centrais da sua pregação e da de Jesus.

Neste contexto, face à nova fase planetária da história e às ameaças que pesam sobre o sistema-vida e o sistema-Terra corajosamente apontadas em sua encíclica Laudato Si’sobre “o cuidado da Casa Comum” queremos cerrar fileiras ao seu redor e mostrar nosso inteiro apoio à sua pessoa e ministério, à sua visão pastoral e aberta de Igreja e à forma carismática pela qual nos faz sentir novamente a Igreja como um lar espiritual. E são tantos de outras igrejas e religiões e do mundo secular que o apoiam e o admiram pelo seu modo de falar e de agir.

Não é destituído de significação o fato de que a maioria dos católicos vive nas Américas, na África e na Ásia, onde se constata grande vitalidade e criatividade em diálogo com as diferentes culturas, mostrando vários rostos da mesma Igreja de Cristo. A Igreja Católica é hoje uma Igreja do Terceiro Mundo, pois somente 25% dos católicos vivem na Europa. O futuro da Igreja se decide nessas regiões onde sopra fortemente o Espírito.

A Igreja Católica, não pode ficar refém da cultura ocidental que é uma cultura regional, por maiores méritos que tenha acumulado. É preciso que se des-ocidentalize, abrindo-se ao processo de mundialização que favorece o encontro das culturas e dos caminhos espirituais.

Querido Papa Francisco: o Sr. participa do mesmo destino do Mestre e dos Apóstolos que também foram incompreendidos, caluniados e perseguidos.

Mas estamos tranquilos porque sabemos que o Sr. assume tais tribulações no espírito das bem-aventuranças. Suporta-as com humildade. Pede perdão pelos pecados da Igreja e segue as pegadas do Nazareno.

Queremos estar ao seu lado, apoiá-lo em sua visão evangélica e libertadora de Igreja, conferir-lhe coragem e força interior para nos atualizar, por palavras e gestos, a Tradição de Jesus feita de amor, de misericórdia, de compaixão, de intimidade com Deus e de solidariedade para com a humanidade sofredora.

Enfim, querido Papa Francisco, continue a mostrar a todos que o evangelho é uma proposta boa para toda a humanidade, que a mensagem cristã é um força inspiradora no “cuidado da Casa Comum” e geradora de uma pequena antecipação de uma Terra reconciliada consigo mesma, com todos os seres humanos, com a natureza e principalmente com o Pai que mostrou ter características de Mãe de infinita bondade e ternura. Ao final, poderemos juntos dizer: “tudo é muito bom”(Gn 1,31).

Carta de apoio ao Papa Francisco

Residuum Revertetur

Perfil Oficial

Últimos posts por Residuum Revertetur (exibir todos)

Categorias

Português

Tags

%d blogueiros gostam disto: