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Se queres a paz, prepara-te…

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“Bem aventurados os pacíficos, meus irmãos e minhas irmãs, porque só vão para o Céu os homens e as mulheres tranquilos, os que não ficam brigando e que resolvem as coisas através do diálogo ou do silêncio. E é tão bonito ver as pessoas ficando quietas, suportando condições difíceis, situações muitas vezes erradas, para manter a paz…”

Era uma missa de domingo. O sacerdote, em sua homilia, insistia tratar sobre um tema que, ao menos explicitamente, não constava entre as leituras do dia. Não sei por que razão, ele só falava de paz, e de paz… Apesar de questionar minha própria postura interior, nada pacífica e muito crítica em relação ao que o padre dizia, não resisti em me deixar levar por certo enfado, em virtude daquela prédica que ele pronunciava em respeitável tom meloso. E me perguntava: “Será que Jesus Cristo pregou isso mesmo? Será que tudo se resolve através dessa coisa que os padres chamam de paz? Sinceramente, eu acho que o mundo está do jeito que está por causa dessas coisas. Mesmo na Igreja Católica, muito do que acontece é por causa dessa paz errada, dessa paz excessivamente misericordiosa, e nada justiceira, que desculpa todos os crimes, e não admite que exista infiltração do mal entre os bons. E é por essa razão que se publicam umas notícias…” Preferi interromper meu pensamento, que já chegava a conclusões não muito harmônicas com a celebração.

Terminada a missa, entrei no carro com o assunto girando na minha cabeça, enquanto meus filhos faziam a bagunça já costumeira, que interrompia minhas reflexões. Fiquei com vontade de dar um berro, mas tinha receio da franqueza das crianças, que poderiam dizer em tom de desaforo: “Oh, pai! Você não escutou o que padre disse sobre a paz? Não precisa ficar nervoso…”; ou de receber uma repreensão de minha esposa que ia repetir a ladainha de sempre, também apoiada nas alegações do pároco.

Cheguei a minha casa decidido a sacrificar o descanso dominical para, pesquisando, responder essas perguntas que não saiam da mente: o que é realmente a paz? Será que pecamos quando brigamos por algo que está correto? Não possuindo livros apropriados para estudar o tema – sou advogado – resolvi procurá-lo na internet: PAZ… Comecei com esse verbete mítico. Encontrei, de imediato, muitas teorias, nenhuma delas era baseada nos discursos de Jesus Cristo. Eu queria saber o que Ele falava a respeito da paz, e o que deveria ser ensinado pela Igreja até hoje.

Então me deparei com algo mais satisfatório: “Paz: tranquilidade da ordem”. Era uma clássica definição, que lembrei ter aprendido na faculdade de Direito. Logo, para ter paz, precisamos de ordem e tranquilidade… cataplam! O estudo foi interrompido por uma queda de meu filho no chão, que se desiquilibrou fazendo malabarismos no braço de uma poltrona do escritório… “Chega!” Bradei um pouco indignado. “Isso não está direito. Sofá não é para essas coisas!” Transtornado com o tombo, o menino assentiu com a cabeça e saiu de fininho. “Que bagunceiro!” Pensei comigo, já com algum remorso… “Será que agi bem?” E a minha procura ganhou tom de exame de consciência: “Fiz errado? Deveria ter repreendido energicamente o meu filho? Tenho certeza que sim! Mas… Agindo dessa forma, não estou desprezando a tranquilidade? O fato é que para manter a ordem nessa casa, de vez em quanto eu preciso ser firme”.

E, continuando a busca, descobri algumas afirmações animadoras que confirmavam minha posição e começavam a sanar as minhas dúvidas. Primeiro foram as declarações de um Papa, que eu não conhecia, João XXIII: “A paz na terra (…) não se pode estabelecer nem consolidar senão no pleno respeito da ordem instituída por Deus” (Pacem in terris, 1). Gostei, pois a vida inteira eu pensei que a paz só existe se as coisas estão em ordem. Depois consegui uma frase mais arrojada, a meu ver, que confirmava as minhas teorias. Era de um documento do Vaticano II, Gaudium et Spes: “A paz não é ausência de guerra” (78). Fiquei mais estimulado, apesar de não ter entendido direito o palavreado rebuscado, quase confuso e ambíguo, do tal documento. Mera impressão de alguém que não está acostumado com a linguagem teológica?

Continuei, e foi um texto composto por dois Santos, que conheci como filósofos na faculdade, Tomás de Aquino e Agostinho, um citando o outro, que me esclareceu a temática: “Os que fazem guerras justas procuram a paz. Consequentemente não se opõem à paz, a não ser à paz má que o Senhor ‘não veio trazer à Terra’, segundo o Evangelho de Mateus (10, 34). Por isso escreve Agostinho: ‘Não se procura a paz para fazer a guerra, mas faz-se a guerra para se obter a paz’” (Suma Teológica II-II, q.40, a.1, ad 3).

Fiquei impressionado com o êxito da minha pesquisa, mas tinha presente que havia encontrado explicitações válidas, entretanto meras interpretações do que teria dito Jesus. Palavras dele mesmo, não descobri. Pensava a respeito disso e fui assaltado por um misto de surpresa e alegria ao conferir o trecho completo do Evangelho citado por São Tomás, que resolvia definitivamente a questão, que já estava ficando demasiadamente filosófica: “Não julgueis que vim trazer a paz à terra. Vim trazer não a paz, mas a espada” (Mt 10, 34). Realmente me entusiasmei! Pois para mim, a frase de Jesus indicava que delatar, brigar, guerrear, repreender energicamente não é pecado, pois Jesus Cristo veio trazer a espada. Assim sendo, para obter a paz, é preciso denunciar os erros e combatê-los! Sempre achei isso!

E já comecei a ficar até emocionado, e tomado de indignação, ao localizar outros dizeres de Jesus na bíblia: “Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz. Não vo-la dou como o mundo a dá” (Jo 14, 27). E pensei: “Quer dizer que existe uma paz pregada pelo mundo, e uma pregada por Jesus!? Então a Igreja se deixou infiltrar, e os padres estão pregando a paz mundana?!” Mas em seguida, fui invadido por um sentimento de assombro: “Hoje em dia, ninguém mais segue esse ensinamento de Jesus Cristo, mesmo na Igreja que Ele fundou…”

Já um pouco cansado, e nada esperançoso por causa de minha conclusão final, coloquei, para terminar, uma expressão do meu âmbito jurídico, na tentativa de consonar ainda mais com as doutrinas novas que aprendi: DENÚNCIA. Aí sim, saí da modorra dominical e fui assumido por um verdadeiro espírito bélico: defrontei-me com um MANIFESTO-DENÚNCIA! Li inteiro e me alegrei ao saber que existe gente na Igreja que, como Jesus no Templo, está disposta a comprometer-se com a missão de denunciar os vendilhões que colocam em desordem a Casa de Deus.

E raciocinei: “Esses Arautos da TFP sim, devem ser homens que querem a verdadeira paz. Essa denúncia não pretende outra coisa senão trazer de novo a ordem e a tranquilidade à Igreja. Para eles não vai ser fácil, pois vão ser perseguidos pelos vendilhões… No entanto, tudo indica que eles não temem nada e estão dispostos a qualquer coisa”.

Passei a admirar os Arautos da TFP, essa instituição que parece representar de maneira completa, e sem hipocrisia, a Igreja de Jesus Cristo. Encerrando minha pesquisa, finalmente encontrei, não na internet, mas na memória de meus remotos aprendizados de direito processual, o provérbio latino que dava o fecho de ouro às cogitações investigativas que preencheram a minha tarde dominical, e parecia ser a inspiração para o ideal daqueles que comecei a considerar como fascinantes profetas de hoje: “Si vis pacem, para bellum”. Se queres a paz, prepara-te para a guerra…

Um admirador dos Arautos da TFP

Residuum Revertetur

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